Dia da Terra e uma Geologia Integralizadora

O planeta Terra registra uma inigualável complexidade de processos em subsistemas (hidrosfera, geosfera, biosfera e atmosfera) [1] que de forma ímpar se integram mantendo o equilíbrio do planeta, até mesmo quando na ocorrência de cataclismos na sua dinâmica. A natureza é sábia: um vulcão que desperta de um sono profundo expelindo com fúria partículas e fragmentos piroclásticos [2], também enriquece a terra com nutrientes, possibilitando a proliferação da vida vegetal e animal.

O próprio estado de entropia possui seu ponto máximo alcançando o equilíbrio [3]. A 2ª Lei da Termodinâmica nos mostra que a natureza, para aqueles menos otimistas, pelo menos parece ser perfeita porque tudo objetiva ao ponto de equilíbrio, independentemente do nível caótico em que as coisas se encontram. Do Arqueano, quando a Terra “respirava” gases tóxicos, e no transitar das placas tectônicas fragmentando-se e navegando lentamente sobre o manto até formar a conjuntura geográfica atual, muitas vezes o nosso planeta passou por mudanças climáticas e de paisagens, até a vida ser concebida. A Terra quando compreendida, passa a ser ainda mais admirada e respeitada.

E a Terra clama por socorro, fazendo-nos vários chamados. Atualmente os maiores desafios a nível global são combater a liberação desenfreada de gases-estufa, o afinamento da camada de ozônio, que estão diretamente associados ao aquecimento global [4]. Derrames de navios oleiros e a presença crescente de microplástico nas águas, proveniente da degradação da cadeia polimérica de vários produtos do nosso cotidiano (roupas, cosméticos, embalagens), e a falta de saneamento básico são vilões na poluição dos cursos d’água de rios, chegando aos oceanos [5]. Já o uso de agrotóxicos e inseticidas, assim como desmatamento e queimadas fazem parte de práticas humanas que devem ser fiscalizadas, controladas ou até banidas [6].

O Dia da Terra, 22 de abril, tem a finalidade de conscientizar quanto aos problemas da contaminação, conservação dos recursos naturais e biodiversidade. Na busca de uma vida “confortável”, a humanidade alimenta-se de um consumo descontrolado e deixa o rastro da degradabilidade. As estratégias de proteção do planeta e de nossa própria existência envolvem sensibilização quanto ao espaço que se ocupa e se pertence. A busca da união entre geologia e ecologia vem romper os vícios de um modus operandi muitas vezes inerte devido a uma prática profissional atrófica. Justamente porque o profissional da geologia deve estar afinado com os desafios globais e locais. Essa é a evolução tão aguardada que deve acompanhar o desenvolvimento tecnológico. O conhecimento acadêmico deve ser frutífero a fim de se construir uma Geologia crítica.

A Carta do Chefe Seattle [7] da tribo dos índios Duwamish, no Estado americano de Washington, enviada ao Presidente Franklin Pierce em 1854 continua atual e fala sobre o choque cultural entre a cultura branca e indígena e a forma com que o homem branco manipula e se apropria da terra. Essa famosa carta é mencionada em diversas instituições ambientais nacionais e internacionais, assim como órgãos ambientais administrativos, porque essas ideias atravessam o tempo. A Carta propõe a irmandade pelos elementos da natureza, a observação das folhagens na primavera, a forma de tratar os animais e percepções no trato com o ambiente que valem a pena ser conhecidas por qualquer profissional que trabalhe com (ou seria pelo?) meio ambiente. Ora, destaca-se aqui que os indígenas já tinham domínio do primeiro passo do método científico: a observação da natureza. Não da mesma forma sistemática que conhecemos, mas certamente a partir de uma visão sistêmica, a qual a ciência passou a considerar fundamental a partir da década de 60. 

E por que não incorporarmos esses valores nas nossas tomadas de decisões? Na nossa gestão? A gestão deveria começar com a autogestão. No ponto de vista ecológico, a escolha que visa o bem e o equilíbrio sempre resulta em harmonia para o ambiente. Mas quando a gestão é de partidos, a gestão está fadada a se partir. “Pedaços de gestão” não atendem as necessidades de caráter integralizador que a nossa sociedade atual, com diversas demandas, exige.  Neste quesito, um convite é lançado: quem sabe a observação, inserida na metodologia profissional, poderia ser conduzida também como “contemplação”, assim como nossos ancestrais faziam?  Será que chegamos a um ponto de inflexão onde diversas práticas devem ser revisadas? Será que conseguiremos fazer uma Geologia mais integralizadora?

Que o dia 22 de abril, Dia da Terra, possa ser uma oportunidade de reflexão sobre a nossa prática profissional e sobre o que desejamos para nós e para as próximas gerações de colegas Geólogas e Geólogos.

Kellen Muradás

Licenciada em Física, Geóloga e Mestre em Geologia – Planejamento Ambiental.

Referências

[1] Odum, E. P. Ecologia. Rio de Janeiro: Guanabara, 1988. 434 p.

[2] Grotzinger, J.J., Press, T., Frank – Siever, R. Para entender a Terra. Ed. Bookman, Porto Alegre. 2006, 656 p.

[3]UFSM. Leis da Termodinâmica. Acesso pelo sítio https://www.ufsm.br/cursos/graduacao/santa-maria/fisica/2020/02/21/leis-da-termodinamica/  em 17/04/2021.

[4] TIME.  How eating less meat could help protect the planet from climate change. Acesso pelo sítio https://time.com/5648082/un-climate-report-less-meat/

[5] World Health Organization – WHO. Microplastics in drinking-water. Acesso pelo sítio https://apps.who.int/iris/rest/bitstreams/1243269/retrieve.

[6] Instituto Socioambiental – ISA. 2008. Almanaque Brasil Socioambiental. 552 p.

[7] Prefeitura de São Paulo. Carta do Chefe Seattle. 1984. Acesso do sítio na internet em 28/03/2021.   https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/upload/chamadas/Carta_do_Chefe_Seattle_1263221069.pdf

3 comentários em “Dia da Terra e uma Geologia Integralizadora

  1. Parabéns Kellen,bela explanação sobre a nossa casa comum .O ser humano deveria respeitar mais a natureza,olhar as belezas que DEUS criou,ela sempre está procurando se renovar e embelezar. A natureza louva o criador.Os seres humanos deveriam fazer o mesmo.

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: