Antártica: das árvores ao manto de gelo e a influência climática global

Geólogo Jorge Luiz Barbosa da Silva - Mestre em Sensoriamento Remoto, Doutor em Ciências, Professor Associado da Ufrgs

 

O oceano Antártico representa uma enorme área da  superfície da terra, inclui ambas as massas de água Antártica e Subantártica que circundam  o continente Antártico formando dois  cinturões  latitudinais consecutivos e aproximadamente uniformes. A massa de água Antártica estende-se desde o continente Antártico até uma latitude de 46º de latitude Sul e massa de água Subantártica de 46º a 55º de latitude sul (figura 1).  A corrente marinha Circum-polar Antártica, a qual é a mais volumosa na terra, desempenha um papel importante no controle climático global da atualidade. 

 

 

Figura 1- Localização das massas de água Antártica e Subantártica e dos pontos de amostragens de sondagens do DSDP, segundo kennett (1977).

 

O continente Antártico ocupou posição geográfica equatorial há aproximadamente 500 Ma e migrou  para o sul chegando a uma posição próxima ao polo há 250 Ma.  E apesar de sua posição geográfica praticamente polar, há evidências de que o clima era ameno sem condições para a formação de um extenso manto de gelo. Essas condições ficam expressas pelos fósseis encontrados da flora glossopteris – suas florestas eram de porte avantajado e cresciam na boda de lagos e pântanos. Após o início do Triássico a flora glossopteris foi  substituída pelas pteridospermas. A diversidade de flora favoreceu também a vida de vertebrados, especialmente répteis (Dutra, T., L ; Jasper, A. 2010).

Na era Cenozóica (65,5 Ma até o presente) importantes alterações geológicas, paleocenográficas e biogeográficas ocorreram nas  regiões  polares do sul. KENNETT (1977, 1980 e 1982) fez um estudo  paleoceanográfico detalhado da região polar Antártica, tendo como suporte  26 testemunhos de sondagens obtidas através do DSDP (Projeto de Perfuração de  Mar Profundo). A análise de isótopos de oxigênio foi de vital importância na interpretação do desenvolvimento paleoglacial da Antártica e a evolução da paleo temperatura dos oceanos.

No Paleoceno (65,5-55Ma), a Antártica e a Austrália estavam juntas, aquela em posição de alta latitude, mas não havia intensa glaciação (figura 2).

 

Figura 2- Reconstituição paelogeográfica da porção meridional da terra no final do Cretáceo e início do Paleoceno, modificada de Kennett (1980).

 

Durante o Eoceno inferiror (55 Ma) a Austrália começa sua migração para norte, afastando-se da Antártica, formando um oceano entre ambas. A corrente circum-Antártica era bloqueada pela elevação continental da Tasmânia e pela própria Tasmânia. Durante a maior parte do Eoceno (55 a 38 Ma) as águas do oceano sul permaneciam relativamente quentes, a Antártica estava ainda em grande parte não sujeita à glaciação, e a vegetação de temperatura fria ainda existia em algumas regiões (figura 3).

 

Figura 3 - Sucessivas posições da Austrália com relação à  Antártica enquanto a Austrália migrava para norte durante o Cenozóico. A elevação continental ao sul da Tasmânia é representada pontilhada, (kennett, 1982).

 

Há 40 Ma, uma conexão de água rasa se desenvolveu entre o Oceano Índico e o Oceano Pacífico sobre a rebaixada elevação continental da Tasmânia. O principal patamar de clima glacial foi atingido, inferido através de isótopos de oxigênio, e assim o mar gelado Antártico começou a se formar. Não há certeza quanto ao evento geológico, mas foi, particularmente, devido ao isolamento da Antártica  pela separação da Austrália, com a formação de um oceano entre dois continentes, e pelo estabelecimento da primeira conexão entre o sul do oceano Índico com o sul do oceano Pacífico.

Durante o Oligoceno (33,7 a 23,8 Ma) uma generalizada glaciação ocorreu em toda a Antártica mas ainda sem a formação do manto de gelo. Ao final do Oligoceno, o fluxo circum-Antártico, profundamente assentado, se desenvolveu através do estreito de Drake, permitindo o fluxo da corrente circum-Antártica de forma irrestrita. Essa mudança paleogeográfica criou a maior reorganização no padrão de distribuição do sedimento  do fundo marinho no hemisfério sul. No Mioceno médio (14-11 Ma)foi atingido um novo patamar glacial, (Zachos et al 2001), quando então o manto de gelo antártico se formou e permanece até os tempos atuais.

 

Referências Bibliográficas.

Dutra, T. L.; Jasper, A. 2010. Fósseis da Antártica. In:Carvalho, I. S. (ed). Paleontologia, Conceitos e Métodos. Rio de Janeiro, 3a. edição. Vol 1, p597-631.

Kennett, J. P. 1977. Cenozoic evolution of Antarctic glaciation, the circum-antarctic ocean, and their impact on global paleoceanography.  J. Geophys. Res 82: 3843-59.

Kennett, J. P. 1980. Paleoceanographic and biogeographic evolution of the southern ocean during the Cenozoic, and Cenozoic microfossil datums. Paleo. Paleo. Paleo. 31: 123-152.

Kennett, J. P. 1982. Marine geology. Prentice-Hall, Englewood Cliffs. University of Rhode Island. N. J. 812 p

Zachos, J; Pagani M.; Sloan, L.; Thomas, E.; Billups, K. 2001. Trends, rhythms, and aberrations in global climate 65 Ma to present. Science vol.292. n.5517 , p686-693.

Banners

Av. Otávio Rocha nº 22, 8º andar - Bairro Centro - CEP 90020-150, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil